quinta-feira, 25 de março de 2010

25 de Março - Dia da Anunciação do Senhor

“- … A verdade é que eu disse sim. Disse-o ao mensageiro para que transmitisse ao seu Senhor. Não pensei muito nas palavras concretas. Foram as que me saíram da alma naquele instante. Já se sabe como são estas coisas. Se te dessem tempo, comporias uma linda oração e encarregarias até um rabino ou um homem perito em letras. Mas assim, de repente, a uma pobre rapariga da aldeia como eu, ocorreu-lhe apenas utilizar a linguagem simples e vulgar a que estava habituada, sem enfeites nem convenções. Por isso disse «escrava». Eu não era «escrava». Os meus pais eram livres e tínhamos a dignidade e o desejo de liberdade que sempre caracterizaram o nosso povo, indomado entre os indomados e muito zeloso das suas tradições. Além disso, era e sou completamente contra a escravatura, por mais que algumas pessoas do meu povo tivessem escravos em casa e que outros afirmassem que sem a sua existência nada poderia funcionar do ponto de vista económico. Já disse que em minha casa nunca gostámos dessa história dos bons fins e meios maus, como nunca nos convenceu muito isso de ser um «mal menor» de que os outros costumavam falar, normalmente para justificar alguma coisa injustificável.
No entanto, no momento de expressar o meu consentimento falei na escrava. Poderá parecer uma tolice, mesmo um contra-senso, uma vez que era contra a escravatura. Mas não me arrependo, apesar de já ter passado tantos anos e de ter meditado muito sobre este assunto. Não só me saiu sem pensar, como, se agora tivesse de repetir a resposta, voltaria a dizer o mesmo.
Quero ser escrava do Senhor. Mas apenas do Senhor. Escrava d’Ele com todas as minhas forças. Ser a Sua escrava não significa não ter dignidade nem falta de liberdade, mas pôr a minha liberdade ao Seu serviço e confiar a minha dignidade ao Seu cuidado. Ele sabe cuidar de mim, muito mais que eu e, além disso, existem por aí tantos que presumem ser livres e depois são escravos do vinho ou de coisas ainda piores. Eu vivo por Ele e para Ele. É algo que escolhi. Ninguém mo impôs, como se viu, quando me pediu permissão para que o Messias pudesse nascer. Mas, baseando-me na minha liberdade, disse-Lhe: aqui me tens, sou a Tua escrava. Podes fazer de mim o que quiseres. Abandono-me a Ti. Utiliza-me para os Teus fins e apenas Te peço que sejas Tu a cuidar de mim. Sou obra das Tuas mãos e só desejo ser um espelho que reflicta a Tua glória e o Teu prestígio.
Sou a escrava do Senhor. Sou a Sua esposa. Sou a mãe do Seu filho. Mas esta é outra história, querido João, que amanhã te irei contar.”



Texto retirado da obra: O evangelho secreto da Virgem Maria, pág. 27 e 28;
Santiago Martín; Paulus editora.