quinta-feira, 18 de março de 2010

O Dom da Inteligência ou Entendimento

O dom da inteligência purifica o coração, e portanto, também a inteligência. São bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus (Mt 5,8). Entendamos por coração puro o contrário de coração «encurvado sobre si», sempre à espera do retorno para exaltação do próprio ego. Entendamo-lo como atitude daquele cuja mão esquerda não sabe o que faz a direita (Mt 6,3), porque o seu olhar (a sua inteligência) está voltado para fora de si. Puro de coração é aquele que não se remira no que é, no que diz ou no que faz. Está preparado para entender melhor o mistério de Deus que se revela no presente e para ver a Deus, que é a pureza total, no mundo que há-de vir.

«A lâmpada do teu corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas!» (Mt 6,22-23).

O dom da Espírito Santo purifica esta lâmpada do corpo que é a inteligência. A sua doença principal é a soberba que cega (Mt 23, 16-24). Inteligência cega inverte o sentido das coisas: «Guias cegos que filtrais um mosquito e engolis um camelo!» (Mt 23,24). Inteligência purificada prepara-se para discernir o essencial, para encontrar a verdade que procura, e pode ver a Deus.
Ao dom da Inteligência a ao coração puro, está ligada a virtude da simplicidade. Para ensinar sobre a atitude verdadeira perante Deus e perante a vida, Jesus serve-se várias vezes, da metáfora das crianças: «se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no reino do Céu» (Mt 18,3;Mc 10,15), e dá graças ao Pai por ter escondido «estas coisas aos sábios e entendidos» e as ter revelado «aos pequeninos» (Mt 11,25; Lc 10,21). A criança é egocêntrica sem o saber. Com pouca ou nenhuma capacidade de introspecção, olha para fora de si sem intenções retorcidas. É simples. Por serem penetráveis ao amor e á graça, pode o pai do Céu revelar os mistérios do reino aos simples. Os sábios e os entendidos estão demasiado ocupados consigo mesmos; não têm disponibilidade para acolher a revelação do mistério.


Do livro: O vento sopra onde quer, Luís Rocha e Melo, S.J.
Editorial A.O.-BRAGA